Naquela noite, todos os rapazes se reuniram ao redor de uma fogueira improvisada. À margem da estrada, o vagão foi movido para um descampado na orla do bosque. Quilômetros e quilômetros depois e o bosque parecia ser o mesmo; denso, escuro, impenetrável. As árvores, grandes carvalhos e salgueiros que se erguiam imponentes sobre a espessa vegetação rasteira, pareciam observar o pequeno grupo com desaprovação, como se os galhos e gravetos coletados para a criação da fogueira jamais devessem ser tocados por mãos humanas. O fogo não tem lugar na selva.
Após uma missão bem sucedida, era normal os ânimos estarem altos – assim como as vozes e os egos. Não houveram baixas. De novo. A tropa de elite novamente fazia jus a seu nome, realizando uma missão impecável, dois dias antes do esperado. Sem baixas. Eles eram invencíveis. Não havia motivo para temer a escuridão ou os barulhos hostis da floresta noturna, que parecia tentar intimidar esses invasores para que saíssem de sua visão. Mas, eles eram invencíveis e nada lhes dava medo. Suas gargalhadas e suas vozes triunfavam estrondosamente sobre a sinfonia da natureza selvagem, indiferente às suas lamúrias ou suas ameaças. Não havia uma estrela no céu.
Ludwig era o único que, como sempre, permanecia calado, seu olhar revezando entre a escuridão da floresta, a escuridão do céu e a parte de dentro de suas pálpebras, onde sem dúvida contemplava a sua própria escuridão. Drakar parou de ouvir as histórias e as gargalhadas e, por um instante, devotou toda a sua atenção ao veterano. Recostado contra uma rocha grande, cuja parte inferior estava enterrada sob a relva, o homem segurava sua garrafa de forma relaxada, ocasionalmente levando-a a boca para um gole. O gole sempre vinha quando seus olhos estavam fechados.
Tomando uma generosa dose ele mesmo, Drakar, analisou o guerreiro silencioso que se sentava à margem da luz. Ludwig deveria ter algo em torno de 34, 35 anos. Isso era bem velho para forças especiais. Ainda assim, seu corpo era tão forte e resistente quanto o dos mais jovens soldados do esquadrão - e mais do que os de alguns. Muitas cicatrizes se espalhavam pelo seu corpo e por sua face cansada, evidenciadas pelo reflexo da chama da fogueira, o que lhes dava um aspecto lustroso em relação ao resto da pele suada do guerreiro. Seus cabelos eram loiros e cortados rente ao seu escalpo, da forma prática que se espera de um homem militar que leva seu trabalho a sério. Seus olhos eram negros, no entanto. Eles se abriram e encararam Drakar.
O jovem guerreiro não sabia ao certo como reagir à descoberta de sua atenção desmedida, nem quanto tempo ficara olhando para o veterano. Mas, ele se levantou de seu tronco e se dirigiu à rocha onde Ludwig estava recostado, decidido a lhe oferecer companhia, conforto, ou o que quer que ele precisasse. Afinal, um companheiro de esquadrão é um irmão e poderia precisar de algo, mesmo não estando ferido.
“É um bando barulhento, não?” disse Ludwig em seu habitual sussurro rouco, conforme Drakar escorreu pela pedra e se sentou ao seu lado. A voz do veterano parecia pesada, doída, como a voz de um homem com remorso.
“Sim,” respondeu Drakar, seus olhos procurando o que havia de tão grave ou interessante nas copas das árvores ou no céu sem estrelas. Ele não achou nada. “O que habita sua mente, Ludwig?”
Um quase-sorriso se formou nos lábios do veterano. “O mesmo que na sua, uh? O mesmo que há na mente de todos os humanos.” Ele apontou para a fogueira, onde os homens se divertiam com suas histórias e, em seguida, para o espaço entre duas árvores, que se estendia como uma estrada que se perde em meio à escuridão. “Luz e trevas... Não?”
“Mas, hoje é um dia de luz, não? Nós vencemos,” respondeu Drakar, “Fizemos o nosso trabalho como soldados.”
“Fizemos... Isso nós fizemos,” disse Ludwig fechando seus olhos e recostando a sua cabeça contra a pedra. Após um longo gole, seus olhos abriram novamente, parecendo medir as nuvens de forma desfocada. “Mas, hoje foi um dos fáceis, não? Não havia muito em jogo, Lutherfield. Não mais do que nossa integridade física.”
Drakar franziu seu cenho, tentando tirar sentido das palavras que ouvia. Nunca havia presenciado Ludwig falar tanto e, quando o veterano tomou fôlego para continuar, tamanha foi sua concentração para absorver cada palavra, que o mundo à sua volta pareceu se calar. Era como se a selva em si estivesse prestando atenção nas palavras do guerreiro e por isso havia cessado toda sua sinfonia. O único som a quebrar o silêncio eram as vozes do resto do esquadrão. Mas, agora, elas eram apenas um eco distante. Drakar fechou os seus olhos e escutou.
“Na guerra,” Ludwig continuou, “há muito mais em risco do que apenas nossa integridade física, uh? Há o risco da morte imediata, mas isso não se compara ao perigo e a gravidade de algo que vai lhe matando aos poucos. Não. Há coisas, na guerra, que vão matando a sua alma, a sua mente, aos poucos. Esse é o seu maior algoz. E isso é inevitável. Eu estive em muitas batalhas, porque fui destacado para a milícia da minha vila antes de ter barba na cara. Eu estive em muitas batalhas e matei muitos inimigos do Império. Matei orcs na campanha da Turasia e matei elfos no Saque de Miralba. Matei aberrações da noite na fronteira com Kataran e Huran. Garoto, guerra é tudo que eu conheço. Matar é tudo que eu sei fazer.”
Drakar não ousou dizer uma palavra. “Mas, na guerra, você precisa enfrentar todos os inimigos da sua nação. Isso é fácil quando estamos enfrentando ogros ou bestas cuja motivação, cuja consciência é algo tão distinto, tão alienígena a nós, que uma compreensão é impossível. Mas, esse nem sempre é o caso e, às vezes, os nossos inimigos são feitos de carne, osso e mente – carne como a nossa, ossos como os nossos e uma mente como a nossa. Humanos. Temos que enfrentar os inimigos do Império, quem quer que eles sejam. Veja bem, eles não são meus inimigos ou seus inimigos. Eles nunca ofenderam ou causaram mal diretamente a nenhum de nós. E nós precisamos matá-los.”
“E a guerra, há, ela desperta algo de selvagem dentro dos homens. Ela faz com que nós pareçamos mais com bestas do que com humanos. Ver a gravidade dos crimes de depravação moral, de violação da carne e do espírito e da mente, que outros homens são capazes de cometer, é algo que abala nossa força, de uma forma que ela nunca pode ser recuperada. A que nível um ser humano pode cair, oh deuses... A que nível! Eu vi coisas... Eu fiz coisas... Há tanto sangue nas minhas mãos que, não importa o quanto eu as lave, elas nunca vão ficar limpas. Eu testemunhei tanta escuridão com meus olhos, que a luz nunca mais vai penetrar minha mente de novo. O homem, é um animal selvagem!”
Ainda com os olhos fechados, Drakar ouvia o veterano, consciente de que até mesmo as conversas ao redor da fogueira haviam parado. “Eu lembro que havia um posto avançado nas fronteiras com o antigo reino de Cohenn. Haviam meses que não recebíamos comunicação de volta de lá, então o alto-comando nos mandou para lá. Era óbvio que o inimigo havia tomado o posto. Aquela maldita torre já havia mudado de mãos tantas vezes, que as pedras do seu chão haviam ficado permanente tingidas de vermelho. Fui mandado num grupo de operações especiais, para eliminar os vigias silenciosamente, antes que a unidade principal pudesse iniciar o ataque. E assim nós o fizemos. Eu me lembro claramente da silhueta da torre, na noite. Era lua cheia, e a torre ficava evidenciada contra a claridade da estrela. Quatro soldados patrulhavam o perímetro, andando em círculos ao redor de uma espécie de cerca que circulava a torre; estacas adornadas de madeira, com uma bola no topo.”
“Nós éramos bons. Cortamos a garganta dos quatro patrulheiros, ao mesmo tempo em que o nosso atirador enfiou um virote através da garganta do quinto, que vigiava do topo da torre. Não houve um som sequer. Quando nós nos aproximamos da torre, para dar o sinal do ataque, no entanto, eu vi algo que me marcaria para sempre. E marcou, garoto. Marcou mesmo, como ferro em brasa. A ‘cerca’ que havíamos notado antes, era na verdade uma série de estacas, fincadas no chão e, as ‘bolas’ eram crânios. Crânios humanos. Crânios de soldados imperiais. Alguns deles ainda tinham algum resquício de pele, ou cabelo, o bastante pra continuar cheirando. É um cheiro que eu não consegui tirar de mim até hoje.”
Houve uma longa pausa. Drakar chegou a pensar que Ludwig havia terminado sua história e, ao abrir um olho para espiar, viu que o veterano estava acendendo um cachimbo, seu rosto, iluminado pelo estalido de sua pederneira, conforme ele queimava o fumo, tinha um aspecto apático, que fez com que o jovem soldado fechasse seus olhos novamente e recostasse sua cabeça contra a pedra. Não havia nenhum som no ar. Nem da natureza, nem dos homens. Até mesmo o vento parecia ter parado de soprar, para ouvir as palavras de dor que saiam da boca deste guerreiro.
“Mas, isso foi o de menos. Surpreendente, não? Cabeças humanas enfiadas em estacas por outros humanos ser o de menos. Não deveria ser. Mas, a natureza vil da nossa espécie não conhece limites, em relação do quanto pode afundar. O meu horror, o meu verdadeiro horror, veio apenas quando a batalha acabou e todos os nossos inimigos jaziam mortos aos nossos pés, misturados numa sopa de sangue e lama. Nesse momento, que um dos nossos, indignado, gritou aos céus e mostrou as estacas ao restante da unidade. Houveram muitas exclamações e indignações com a ‘barbárie dos porcos de Cohenn’ e do ‘quão cruéis esses monstros podiam ser’. Então, o primeiro, que havia gritado aos céus, tirou com cuidado um dos crânios dos nossos homens do espeto. Mas não parou aí. Ele decapitou um dos corpos dos inimigos caídos e, pegando uma cabeça pelos cabelos, a fincou na estaca. E ele foi imitado pelos outros dos nossos soldados, até que todas as estacas estivessem ocupadas por cabeças frescas. E eles disseram que justiça havia sido feita. E eu não disse mais nada.”
“Há, meu jovem, muitos horrores na guerra. Na guerra, e apenas na guerra, nós conhecemos o verdadeiro coração das trevas. Eu estive lá; e todo soldado vai estar um dia.” Drakar pode ouvir uma longa série de goles, vindos do veterano ao seu lado. “E ninguém sai de lá ileso. Há muito mais a se perder numa guerra do que membros e sangue.” Ele permaneceu quieto por alguns segundos. “Há de se tomar cuidado para não perder a si mesmo.” Com isso, Ludwig levantou e cruzou o caminho até o vagão. Os olhos de todo o esquadrão o acompanhavam em silêncio, com expressões variavam de terror à desconsideração. Mas ninguém ousou dizer uma palavra. Nesse momento, Drakar percebeu que Ludwig estava, sim, ferido. Muito ferido. E eram ferimentos que nunca iriam cicatrizar.
Drakar Lutherfield - soldado
Ludwig Herman - soldado veterano

Interessante
ResponderExcluirMuito inspirado, texto digno de um Vod.
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